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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Escoteiros na Lagoa da Serra


Segundo acampamento, novos escoteiros.
 
Em meados do ano de 2001, mais precisamente no dia 25 de junho,  eis que uma turma de amigos e eu resolvemos por nossa “coragem” a prova e ir acampar em uma das propriedades de Dr. Pedro, a famosa Lagoa da Serra, no município de Pocinhos (a vista é deslumbrante e cheia de pinturas rupestres). Acampar nessa época era uma febre entre os contemporâneos de mesma faixa etária

Sem preparo algum, mas com o desejo de provar para nós mesmos que podíamos nos virar sozinhos (desejo de liberdade que todo adolescente almeja), saímos, de madrugada,  as seguintes caras: Thiago de Lela; Gilson (Guda), de Severino; Sérgio e Suélio,  de tia Mabel;  Gonga,  de Gonzaga; Sydnai,  de Maria de Raul; Júnior,  meu irmão,  e Eu.

Levamos um monte de suprimentos para passarmos esses dois dias, uma máquina fotográfica,  para registrarmos os momentos, uma lona preta de plástico, dessas que se usa para cobrir casas,  para ser o telhado da barraca e muita disposição e alegria.

Saímos logo cedo,  numa Paraty que minha mãe havia recém-adquirido de Luciano Barros e Gonga foi numa motocicleta branca, que Gonzaga possuía. Chegamos próximo ao local e o primeiro obstáculo era a distância onde deixaríamos os veículos, até o local no qual  iríamos acampar (cerca de uma hora de caminhada). Foi um sufoco para levar toda a quinquilharia (lampião, um rádio velho, roupas, comida e tudo o mais).

Após um longo tempo, chegamos ao pé de uma caverna onde supostamente iríamos passar a noite, mas após entrarmos em acordo, decidimos ir para um lajedo, pois era próximo da água que precisaríamos para cozinhar, tomar banho e etc.

Ao chegarmos, descarregamos as coisas e começamos cozinhar algo para comermos. Daí, percebemos que levamos as panelas, mas havíamos esquecido as tampas. A comida ficou com um gosto horrível, só fumaça, mas estava delicioso ante a fome que estávamos.

Chega a tarde e vamos procurar lenha para a fogueira à noite e para montarmos a barraca. Arrumamos uns bons pedaços de madeira e por volta das 18h nosso lar estava pronto, já sob a luz de um imponente lampião trazido por Guda.

Chega a noite e,  com ela, a  hora de acender a fogueira que nos aqueceria com seu calor enquanto jogávamos conversa fora. Conversas sobre “malassombro” rolaram a noite toda, até o sono nos pegar. Quando é hora de dormir, vamos todos para a barraca que apenas nos cabia deitado, sem que ao menos pudéssemos nos virar. Guda dormia na ponta, munido de sua “Sovaqueira” (espingarda, não mau-cheiro) para nos proteger de algum bicho que viesse nos importunar.

No outro dia, a rotina se repete. Os caçadores indo ao mato caçar algo para nos deliciarmos na fogueira à noite. Nós,  que não sabíamos caçar, escutávamos um rádio que levamos enquanto jogávamos conversa fora e assim logo passou o dia.

À noite,  caiu uma chuva inesperada. Não estávamos preparados para aquilo! Como estávamos em cima de um lajedo, rapidinho ficamos  ensopados igual frango na panela. O desespero começou a bater em alguns, pois trovejava muito, sem falar no frio insuportável que sentíamos. Um de nós saiu correndo procurando abrigo por cima das pedras (imagina o perigo de escorregar em alguma pedra, bater a cabeça... só acharíamos no outro dia). Após um longo tempo, dormimos só acordando no outro dia bem cedo.

Ao acordarmos hora de fazer o café. Acordei bem cedo e comecei a colocá-lo no fogo. Coloquei tanto café que após colocar quase meio quilo de açúcar ele  ainda continuava amargo.

Quando chegamos a Areial, para nossa surpresa, deixamos logo Sidnay em sua casa. Gonga,  gaiato como sempre,  chegou fazendo fofoca, gritando que era vendedor de prestação. A casa de Sidnay tava cheia de gente, pois sua avó tinha falecido. Imagina a vergonha que passamos depois com essa situação...

Quando fomos revelar as fotos, pra nossa surpresa, o filme não havia sido colocado direito por um de nós e simplesmente perdemos tudo que tínhamos registrado. Dois dias depois,  fomos de novo para o mesmo local só para tirar essas benditas fotos.

Enquanto subíamos em turma para as pedras para tirarmos fotos, fomos atacados por alguns marimbondos. Todos correram. Eu que vinha atrás não tive para onde correr, levei várias ferroadas de marimbondo nas costas e,  na hora do desespero, me joguei de uma pedra que tinha uns cinco metros de altura.

E essa foi nossa primeira experiência como “escoteiros”. Depois desse acampamento ainda nos aventuramos em mais três, agora mais experientes tudo correu bem. Novas pessoas foram convidadas para  nos acampar como: Patrick Custódio, Israel (Rael de Seu Ismael), Franck (da retro escavadeira), Galileu, Oberto Grangeiro e muitos outros.

Bons tempos que não voltam mais, exceto em nossas memórias...


Carlos Henrique Pereira Balbino 


Filho de Carlos Alberto Barbosa Balbino (Carlão) e de Cleide Lene de Souza Pereira Balbino. Administrador de empresas, ex-secretário adjunto de finanças do município de Areial.  Natural da cidade de Sobradinho – DF e Areialense de coração.







quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sobre bola de gude, banho de açude e brincadeiras nas ruas


Depois de ler o texto de Alex fiquei um bom tempo lembrando minha infância, lembrei-me dos desenhos animados e brincadeiras que as crianças de hoje não sabem o que é, muito menos como brincar.

O palco de todas essas brincadeiras eram as ruas, que na época ainda não eram calçadas, o que facilitava desenhar o Garrafão, a linha de centro da barra bandeira ou baleada, ou ainda cavar as três bocas para uma boa partida de bola de vidro, podíamos ainda brincar de “palmo-e-quila” ou triângulo, nesse caso o jogo seria apostado. Brincadeiras que não precisavam de muito dinheiro, mas, que eram melhores de qualquer game station, ou jogos virtuais de hoje em dia.

À noite costumávamos brincar de “trinta e um batido”. Os bons esconderijos eram os muros de dona Virgínia, dona Joaquina, Ziza e alguns terrenos por perto como o de Jaime Melo.

O que eu mais gostava brincar era de Caipira (jogo com enumerado de 1 a 6 ou times de futebol e um dado, como os que aparecem nas festas) a moeda muito forte na época era nota de cigarro, dinheiro que não desvalorizava quanto mas difícil ou caro o cigarro maior o valor da nota, não tinha dinheiro que comprasse uma nota de Luiz XV, um Luck Strike de preferência da caixa de papelão.

O ritual era sempre o mesmo:  catar as notas nas ruas e perder à noite no Caipira. Mas como era bom, mesmo perdendo saía satisfeito.   No vacilo do banqueiro, descobria que o dado (feito de madeira) era viciado. No dia seguinte, já esperava afuturar o dinheiro perdido anteriormente.

Da minha época,  duvido muito quem nunca foi tirar barro na Barragem para fazer bois de barro ou bala para caçar de balinheira.

Das “traquinagens” de criança, a que eu mais cometia era tomar banho no Açude Velho (escondido dos meus pais).  Num desses acabei escorregando na pedra (no pitoco) do açude e caindo de cara.  Quebrei dois dentes da frente.  Nesse dia, Jailson Tartaruga e Júnior de Fátima Andrade,  ao mesmo tempo em que me ajudava tirava sarro da minha cara. Não deu pra mentir pra papai.

Outra coisa que não esqueci foi subir a caixa d’água á noite, eu Tonho de Bernadete e  Gonga de Gonzaga.  Subíamos sem muita cerimônia, degrau por degrau. Lembro muito bem que o antepenúltimo degrau estava muito enferrujado, não podíamos nem pegar. Isso tudo escondido dos vigias e dos nossos pais,  é claro.
“Eu não vivo no passado, o passado é que vive em mim” e assim nunca vamos deixar o nosso tempo de criança morrer…


Vamberto Souza S. Filho

Filho de Vamberto Grangeiro e Gloria de Lourdes. Neto de José Grangeiro e Josefa Alexandre.
Técnico em Equipamentos Médico Hospitalar, microempresário. Apaixonado por Areial, por causos, contos nordestinos e poesia popular. Atualmente, mora no Conde-PB.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Um nó cego na braguilha de Severino Cardeiro




Severino Cardeiro era o protótipo do velho do saco, com barba grande e suja, bigodes amedrontadores, cara de mau, aspecto e cheiro de quem não gostava muito de tomar banho. Ele era um mistério. Meio antissocial e morava em uma casa mais estranha que ele, praticamente uma caverna pré-histórica.

A “maloca” dele, de taipa, ficava onde é a Capela São Francisco (Paraguai). Ninguém sabia onde era a cozinha ou a sala, a menos que o fogão estivesse aceso e a fumaça subisse pela chaminé, parecia mais uma caixa de abelha. A esposa dele também dava medo, não me lembro de ninguém que tivesse feito amizade  com ela.

Como Seu Severino tinha o aspecto descrito acima, assustava as pessoas e andava do jeito que bem entendia, não dava a mínima para estética. Quando bebia, era realmente um desmantelo. Justamente num dia desses, ele chegou à casa do meu avô (Zé Pedro), com a braguilha aberta e aparecendo os pelos pubianos (uma mata!).

Foi um deus-um-nos-acuda. Causou maior mal-estar, mas quem tinha coragem de avisar ou mesmo reclamar a “pouca-vergonha”? Eis que minha tia teve uma grande ideia: foi à cozinha, pegou um cordão de sisal (embira de agave), agarrou o velho pela mão, puxou para trás da porta (aquelas dividas em duas), pegou os “troços” dele e deu um nó cego juntando tudo.

Depois que o soltou, acho que deve ter prendido além da braguilha, ele saiu meio desconfiado e mancando, como se algo estivesse prendendo suas partes, como diz Socorro Fernandes.  Pegou o caminho de casa com “gosto de gás”. Parecia um cachorro quando ouve o barulho de um foguetão.

Nós ficamos rindo, tanto da atitude corajosa de minha tia, quanto da aflição que o coitado do velho estava passando. Imaginávamos a dor que ele poderia estar sentindo ou na vergonha que ele deve ter passando,  tendo que alguém lhe fechasse  a braguilha de forma tão inesperada.

Zélio Sales

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Brigas e Brigões de Areial




Sou adepto da paz e acredito que ela deva sempre reinar. Porém, o que vou contar diz respeito às brigas e aos brigões de um tempo em que vídeo game não existia e TV ainda era artigo de luxo na maior parte dos lares areialenses. 

A criançada vivia na rua jogando bola, brincando de 31 batido, barra bandeira, baleada, garrafão, etc. e   por isso havia mais contato, mais desentendimentos e consequentemente mais brigas, nada mais que coisas da criançada da minha infância.

Engraçado é, que naquele tempo, as brigas eram fatos marcantes entre a molecada, principalmente quando delas participavam os cabras mais brabos de Areial na época, a saber: Nalvo de Zé Eleutério (vulgo Bebe Óleo, pois seu pai tinha uma oficina vizinho a Zé de Argemiro, na saída da cidade), Bebeto de Miguel Anízio (Conhecido como Boi Ferrado), Wilson de Bernadete (mais conhecido como Ussinha) e Jocélio de Zé Preto.

A primeira grande briga que presenciei ocorreu nos idos de 85 ou 86, no pátio do Estadual Francisco Apolinário da Silva,  em função de uma discussão surgida na brincadeira de barra bandeira, envolvendo Nalvo e Boi Ferrado. Nalvo ganhou fácil esse primeiro embate. E a briga virou assunto entre a molecada da nossa idade por uns cinco dias.

Porém, uma semana depois, na hora do recreio, Boi Ferrado em companhia de Ussinha pegaram Bebe Óleo pra Judas. Dois contra um era covardia.  Nalvo apanhou muito. Ferido, Nalvo prometeu vingança, dizendo que ia pegar um de cada vez. Essa briga foi assunto por mais de uma semana. Certamente, não houve revide, pois não foi noticiado tal fato.

Mas as melhores brigas eram aquelas que envolviam o grande amigo Jocélio de Zé Preto, que tinha como principal arma o porte físico. Pois bem! Meses depois dessas brigas envolvendo Nalvo, Boi Ferrado e Ussinha, durante o recreio do Estadual Francisco Apolinário, o filho de Miguel Anízio se desentendeu com Jocélio, e até iniciou uma troca de murros, mas tomou uma surra da bexiga. A partir dali, Jocélio entrava para a lista do seleto grupo dos “Brabos de Areial”.

Menos de uma semana depois, Boi Ferrado utilizando-se do mesmo artifício que com Bebe Óleo, a ajuda de Ussinha, resolveu dar o troco em Jocélio. Eram dois contra um! O mesmo destino de Nalvo seria dado a Jocélio? Eis que Boi Ferrado e Ussinha cercaram Jocélio para lhe desferir socos e pontapés que foram prontamente revidados.

Apesar da desvantagem numérica, O filho Zé Preto manteve o combate equilibrado e depois de muitos socos e pontapés, mais desferidos do que sofridos, fez Boi Ferrado e Ussinha correrem. O burburinho desse embate durou pelo menos duas semanas entre a molecada e Jocélio foi conduzido ao posto de cabra mais brabo da molecada da nossa faixa etária.

Embora Manezinho (vulgo Manezinho da Cachorra) e Natanael de Geraldo Liberato não figurassem entre os mais brabos da nossa época, protagonizaram muitas brigas engraçadas, até mesmo por não escolherem o local para se atracarem. Brigas deles presenciei umas cinco - eram meus amigos e comigo estudavam. 

Eles deixavam D. Socorro Martins, nossa professora da 2ª e 3ª série, de cabelo em pé, pois na maioria das vezes inventavam de brigar dentro da sala de aula.


 Alex Aires de Souza

Filho de Benedito (de Zé de Souza) e de Lúcia (de Biba Aires). Nascido, criado e tão apaixonado por essa cidade que, de tanto dela falar e contar os causos que nela se passaram, muitos amigos espalhados por esse Brasil me chamam de Areial. 


Bacharel em Ciência da Computação pela UFPB. Analista de Suporte e funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos
 

domingo, 16 de janeiro de 2011

Passarinho: um ex-cangaceiro de Lampião


Marcos de Lima (Passarinho) nasceu em Santa Cruz, antes distrito de Triunfo-PE,  em 22 de setembro de 1903. Começou cedo no cangaço com idade de 16 anos em 1919, ainda no comando do cangaceiro Sinhô Pereira (Lampião ainda não havia formado o seu bando).

Posteriormente,  Sinhô Pereira confia entregar o comando a Lampião e vai embora para Goiás onde seus familiares tinham propriedades, isso mais ou menos por volta de 1921. Logo em seguida, são formados novos grupos de cangaceiros para dar sustentação ao grupo de Lampião.

Passarinho entra num desses grupos comandado por Cícero Costa, ou Ciço Costa (um Paraibano) que agia na região de Conceição de Piancó PB. Eles  e Ciço Costa participaram  do bando de Lampião em várias ocasiões. Esse seu chefe imediato era um grande conhecedor de farmácia natural, o médico do bando.

Muitas pessoas acham que Passarinho conviveu diretamente com Lampião.  Não, ele teve vários encontros com o rei do cangaço, inclusive participando de alguns ataques como na propriedade de José Trajano, localizada no município de Conceição PB,  com o seu chefe tomando-lhe rifle e dinheiro em 06 de julho de 1921.

Existiram dois Passarinhos no cangaço, por isso que algumas publicações citam: Passarinho l e Passarinho 2, ( era costume quando algum morria ou era preso, se colocar o nome de outro que estava chegando e com semelhança ao mesmo, batizar de fulano l e fulano 2, e Passarinho é claro e vidente foi o l.

Nessa vida tirana, Passarinho viveu 3 anos e 7 meses no cangaço,  até quando foi preso em 24 de dezembro de 1923. Foi recolhido a cadeia de Princesa e sendo condenado pelo júri local a 29 anos e 9 meses de prisão.

Fora preso e condenado por haver assassinado naquele ano, mais precisamente no dia 17 de dezembro do corrente ano, num local chamado Caracol do município de Conceição do Piancó PB, Raimundo Nogueira a quem roubara-lhe sua roupa e algum dinheiro. Seis dias após o acontecido, o irmão de Raimundo surpreende Passarinho nas adjacências da povoação de Patos, município de Princesa.

Passarinho estava justamente com as roupas do seu irmão Raimundo, este saca de uma arma e atinge Passarinho.  O seu companheiro Juriti, num vacilo de Raimundo, por trás  dá-lhe uma pancada na cabeça e termina o ato dando-lhe várias facadas. Passarinho,  ferido, entra na povoação gritando: acabam de matar um homem e  me feriram  também, (pra ver se enganava os soldados).  Banhado  de sangue dos ferimentos, recebe voz de prisão, não por obediência a lei, pois era valente, mas pelos disparos recebido.

Recebendo ameaças de morte é transferido para João Pessoa onde cumpriu 7 anos  e 9 meses de prisão. Vem pra Campina Grande, depois Pocinhos (é quando conhece sua futura esposa dona Petronilha, mais conhecida por dona Pitu. Casa-se em Campina Grande e vem morar em Areial, pois dona Pitu tinha familiares residindo aqui. Não teve filhos, mas criou um filho adotivo (Arinaldo) do qual ganhou três netos (uma mulher e dois homens ).

Em Areial, viveu por mais de sessenta anos.  Faleceu no dia 15 de agosto de l998, aos 95 anos, e seus restos mortais estão no cemitério local. Sua esposa dona Petronilha Maria de Araújo, nasceu no dia 23 de setembro de 1917 e faleceu em 19 de agosto de 2004 em Areial, aos 86 anos e onze meses, e seu sepultamento também foi no cemitério local.

São vários livros e jornais que citam o nome ou fizeram manchete com o nome de Passarinho.

Trecho extraído do livro: “Passarinho: um ex-cangaceiro de Lampião em Areial” (ainda em acabamento de autoria do pesquisador, Eudes Donato)


Eudes Donato

Filho de Antônio Apolinário Gonçalves e Hilda Donato Gonçalves, Funcionário Público da Empresa de Correios e Telégrafos, pesquisador, colecionador de vários itens, como gibis antigos, discos de vinil, livros sobre o cangaço, e grande acervo esportivo. Colaborador em pesquisas para a revista Placar da Editora Abril, Revista da Esperança, livro sobre o América Futebol Clube da cidade de Esperança, etc.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Catembas Iluminadas III




Como escrevi nas postagens anteriores (Catembas Iluminadas I e II) saí de Areial faz tempo. Fui para o seminário trabalhei, trabalhei  com a Pastoral da Terra, depois, envolvi-me no movimento popular e no Partido dos Trabalhadores, tornei-me liderança das ocupações urbanas onde dirigi a ocupação da Ramadinha I e II,  no Bairro Bodocongó.

Mas paguei um preço muito alto por mais esta ousadia.  Fui preso, arbitrariamente,  duas vezes.  A imprensa me estigmatizava como o “Rei das invasões”. Não podia ter uma residência fixa porque era constantemente ameaçado de morte e vivia em  local apoiado e protegido pela própria população. Foi nessa época que fui detido mais uma vez.

Na ocasião de uma ocupação de terra, fui preso e vítima de tortura. Um dos policiais colocou uma arma com apenas uma bala e fez roleta-russa em minha cabeça, ao mesmo tempo falava: “Olha como se mata um comunista FDP!”, e puxava o gatilho.

Eu achava que aquele seria o meu último momento, sem falar nas duas sessões de espancamento que fui vítima. Minha sorte foi que, no momento que estava sendo espancado, chegou uma repórter de nome Vanda, daí então eles pararam de me espancar.

Ela, “sem querer”, salvou minha vida.  Salvou a vida de uma pessoa que talvez não suportasse mais a sessão de espancamento, pois nestes momentos o torturador se empolga demais, porque enquanto eles batem, gritam, babam, como se estivessem movidos  com um ódio insano e sem limites, acabam  levando sua vítima ao óbito.

Fui colocado na mesma cela na qual, na noite anterior, encontraram três corpos que, segundo a polícia, foram vitimas de suicídio.  Mas conversando com os outros presos cheguei à conclusão que foram vítimas do esquadrão da morte que atuava dentro da estrutura de segurança pública. Minha  prisão durou o dia inteiro.

No entardecer, fui chamado para conversar com três homens,  em uma sala de um aspecto muito feio. Parecia que a sala estava em reforma, mas logo  fui tranquilizado por uns  dos homens que pediu que me tranquilizasse, ele era advogado da Associação dos Funcionários Públicos e estava ali  a mando da Companheira Cozete Barbosa,  que depois de tornou prefeita de Campina Grande. Sou eternamente grato pela atitude da companheira Cozete.

Com a disposição de convocar a imprensa e denunciar tudo o acontecido, fui desmotivado pelo presidente do PT, ali mesmo, dentro da delegacia, que me aconselhou a deixar para lá, que isso poderia sobrar para o partido.

Nesse momento, estava nítido que dentro dos partidos de esquerda, principalmente, tem gente que se aproveita da militância do povo para se promover, mas, quando chega a hora “de a onça beber água”, caem fora e deixam na pista aqueles que são tratados como se fossem animais selvagens que eles chamam de inocentes úteis.

Em 1988, chegava ao Rio de Janeiro. Fui morar na cidade de Nova Iguaçu, onde permaneço até hoje. Exerci e exerço várias funções profissionais.  

Gostaria de registrar que todas as minhas saídas dos seminários se deram por conta de assumir a minha condição homossexual. Sempre achei que a orientação sexual não deveria ser motivo de afastar as pessoas do seu sacerdócio.  A  pedofilia, sim, deveria ter uma condenação mais rígida por parte da igreja, mas pelo contrário, isso acaba se tornado uma praga que se está não somente no campo religioso, mas em muitas famílias, haja vista,  segundo dados policiais,  a maioria dos pedófilos é composta por “machões” que violam crianças.

Os homossexuais são minoria dentro da questão da pedofilia, mas de qualquer forma é uma patologia que deve ser sempre combatida. Por isso tenho até hoje a minha consciência limpa, pois sempre combati, não somente a pedofilia, mas também a homofobia dentro das instâncias religiosas.

Hoje trabalho na Secretaria Municipal de Saúde de Nova Iguaçu.  Consegui este emprego através de Lindbergh Farias, um paraibano que fez uma grande administração na cidade.  Trabalho na unidade móvel, um ônibus que leva exame preventivo, consulta médica, saúde bucal, verificação de pressão arterial, exame de glicemia,  e prevenção as DST/AIDS que é a minha  especialidade.

Toda quinta-feira deixo a unidade móvel e faço  o  trabalho de prevenção que se chama, “Saúde no cárcere”, na Delegacia de Polícia com os quatrocentos presos acautelados pelo Estado  que ficam na Cadeia Local em Nova Iguaçu.

Não me arrependo do que fiz, mas buscava uma revolução que seria de fora para dentro, e hoje compreendo que a verdadeira revolução e mudança vêm de dentro para fora, ou seja, se quero mudar o mundo para melhor, tenho que começar dentro de mim.


Eugênio Ibiapino

Filho de Eurico Ibiapino e Angelita Ferreira, meus avos paternos, Sesinando Ibiapino e  Maria Madalena da Paz, meus avós maternos, Sebastião Ferreira (Sebastião Chole)  e Santina Balbino. Nasci em 1962, numa rua atrás da Rua Manoel Clementino, e depois passei a maior parte da minha infância e o começo da minha adolescência na Rua Sebastião Benjamim, popularmente conhecida como “Rua da Briga”.

Fundador do movimento LGBT da Baixada Fluminense e Membro Titular do Conselho Estadual de Políticas Públicas para LGBT (Lésbicas, Gays,  Bissexuais, Travestis e Transexuais)  Coordenador Geral da Parada LGBT de Nova Iguaçu; Vice-presidente do Grupo 28 de Junho. 

(21) 9362-8785


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A mulher mais elegante de Areial


Uma das mulheres mais elegantes que já desfilou por Areial foi Margarida de Souza Fernandes. Ela era uma lady. Podia vestir estopa ou chita que ficava glamourosa. E não era o chic da ditadura da moda. Essas roupas que as mulheres usam para dizer que estão na crista da onda, mesmo que não lhes caiam bem.

Opa, já ia esquecendo, as pessoas não a chamavam de Margarida, mas simplesmente Dona Dodó. Vestia-se de forma impecável, roupas e acessórios lhe davam a impressão que era uma socialite. A forma de falar, mansa e pausadamente, era outro atributo de encanto. Ela meio que hipnotizava as pessoas.

Até mesmo coisas bregas, como óculos de sol servindo de tiara, se tornava um acessório a completar o look. Cabelos bem cuidados e perfume sem exagero faziam que fosse quase uma orquídea silvestre e não a flor que lhe emprestava o nome.

Nascida em uma família pobre de Esperança, como me confidenciou seu filho, Elton, ela construiu sua ‘classe’ sem frequentar aulas de etiqueta, nem os salões da afetação da pequeno-burguesia metida a besta, que  costuma criar modismo e artificialidades de comportamentos.

A elegância não tem classe social, credo ou etnia. Uma mulher elegante, não se esconde na segurança estúpida da multidão, pelo contrário, faz questão de ser ela mesma e de evitar clichês elitistas. Porém, não esquece os  “muito obrigada”, “com licença”, “foi um prazer” e “sinto muito”. Uma dama elegante cultiva a gentileza e a cortesia.

Talvez, nunca tenha vestido Dior, Dolce e Gabana, Donna Karan, Colcci, Gucci,  Lacoste ou outra marca distintiva social e economicamente, mas comportava-se com se a própria Coco Chanel (importante estilista francesa) lhe talhasse a roupa.

Vai demorar a surgir uma mulher tão elegante como ela. Dona Dodó, foi sem dúvida,  a mulher mais elegante de Areial, mesmo sem ter nascido na Terra do Crochê.

Zélio Sales