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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Barata na tigela


Essa aconteceu naqueles cariris brabos quando homens dispostos a ganhar um dinheirinho ou até em troca de alguma rês (gado, bode) se embrenhavam na mata, nas macambiras, xiquexiques e naquele calor infernal, passavam dias cozinhando e dormindo no mato, pois era muito distante da casa sede da fazenda.

Esses homens corajosos, com saúde de gigante. Pois bem, todos os dias tinha que ficar algum companheiro pra tomar conta da comida e sempre eles se arranchavam perto de alguma fonte de água. A tigela de barro era dessas que cabiam mais ou menos vinte litros de água, que era pra fazer mais caldo do que feijão e render mais.

Seu João foi escalado nesse dia.  Então, ele procurou caprichar na comida, colocou charque e uns pedaços de tripa seca já salgada.  Também colocou pimenta a gosto. Chegando ao meio dia (eles se orientavam pelo sol, ou seja, quando a sua sombra não refletia nos lados era sinal que era o meio dia).

Seu João não estava com tanta fome quanto aos outros, pois não tinha trabalhado pesado naquele dia, os outros é que estavam com uma fome de comer pedra.  Por isso seu João deixou pra comer por ultimo. Um a um foi tirando seu feijão e no final colocavam um prato de caldo com farinha e muitas vezes era repetido o prato. Todos estavam gostando da comida muito boa, porém com um gostinho diferente dos outros dias, achando que era a mão caprichosa de seu João.

Quase que não deixam nada pra seu João, mesmo assim ele coloca o seu prato já pegando a rapinha do fundo da tigela e começa a comer, depois no fundo da panela um pouquinho de caldo que restava ele nota que havia algo estranho no fundo da panela.

Para sua surpresa e para todos, estava ali uma tremenda barata daquelas que é chamada de barata d’agua que vivem nos tanques de pedra ou barreiros.  A bicha cozinhou tanto que já estava toda espatifada. Seu João em matéria de comida, sempre que falava, saia com essa: “e eu só venha”, gesticulando a mão no sentido da boca e dizendo que foi a comida mais gostosa que comeu com aquele gostinho de cedro.

          Trecho extraído do livro: Causos e estórias vividas pelo povo dessa terra Areial (falta ser publicado)

Eudes Donato

Filho de Antônio Apolinário Gonçalves e Hilda Donato Gonçalves, Funcionário Público da Empresa de Correios e Telégrafos, pesquisador, colecionador de vários itens, como gibis antigos, discos de vinil, livros sobre o cangaço, e grande acervo esportivo. Colaborador em pesquisas para a revista Placar da Editora Abril, Revista da Esperança, livro sobre o América Futebol Clube da cidade de Esperança, etc.



             


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Afinal, quem era João Alfredo?

      
Pessoas do passado um pouco distante, sabe muito bem quem era João Alfredo. Conhecem mais pelos causos, histórias verdadeiras e outras fantasiosas, como também a geração de hoje conhece suas estórias através dos mais idosos ou parentes.

Seu nome verdadeiro era João Alfredo Vicente, nasceu no município de Areial,  Sítio Arara,  em 12 de novembro de l916. Era filho de  Maria Filirmina da Conceição. Seus pais faleceram muito cedo e deixou seu João, um irmão de nome Adauto e outro que foi embora e nunca mais se teve noticia (deve ter sido criado por outra família).

Seu João e seu irmão, muito jovens,  tiveram que procurar destino e como ele era de conversar bastante sempre conseguia uma boa amizade e por isso sempre arrumava um serviço. Trabalhou em Pocinhos, Soledade, Olivedos, Cubati e até em Patos. Ele só gostava de andar por essa região, ou seja, pras bandas do cariri e sertão, nunca aqui na região de Esperança, Remígio ou Areia setores do brejo.

Conheceu tia Maria (era irmã de meu pai Antônio Apolinário) na década de trinta e casou-se na década de quarenta em Pocinhos. Começaram a vender umas bananas aqui, outras ali, macaíbas, cachaça, bolos e doces (feitos por tia Maria).

Estabeleceram-se no centro da cidade, ou seja, onde hoje fica a loja de móveis, vizinho a Manuel Preá. Tornou-se um pequeno comerciante, que dava para o sustento da família. E no meio desse comércio sempre estava contando suas anedotas, suas fantasias imaginárias e alegrando a rapaziada.

Na sua mercearia ainda conheci os refrigerantes Grapete e CRUSH, os sequilhos e bolinhos de goma, os cocorotes, língua de sogra e outras guloseimas deliciosas. Sempre estava de bom humor com aquele pé de burro (cigarro de fumo de rolo) na boca.

Nos finais de ano, depois de “Noite de ano”, era tradicional, era obrigatório todos aqueles conhecidos de seu João e até gente de fora da cidade, passar na mercearia para tirar a ressaca da festa (na cidade era o único que saturava os bêbados, pois nos outros estabelecimentos era raridade estar aberto).

Como todo mundo sabe era aquela risadeira total, aquela alegria geral com seu João também envolvido naquela algazarra e já tomado vários goles de cachaça.

João Alfredo mesmo sem ter aprendido ler e escrever, mas era muito inteligente, autodidata. Era criativo nas suas narrações, era um verdadeiro ator (contava suas estórias gesticulando e fazendo o seu cenário) isso sem nunca ter visto e conhecido peças de teatro.

Ele já fazia tudo isso por natureza, era um verdadeiro humorista nato (eu creio se seu João tivesse estudado e morado noutros centros, com certeza  seria um ator de cinema ou de novela do rádio ). Era  a nossa alegria, a minha alegria a sua alegria, alegria de todos aqueles que mesmo tristes ao ouvir suas estórias, já era um doutor de terapia para nossas mentes. Você saia aliviado de uma magoa ou raiva de alguém, um homem que nunca teve maldade, malícia, só simplicidade, por isso, talvez esteja sempre alegrando o povo lá de cima.

Teve dois filhos, Ery (já falecido) e Erivanda. Alcançou, ainda vivo,   cinco  netos. Sua esposa era filha de Apolinário Salustiano Gonçalves e Joana Maria da Conceição (pais de Antonio Apolinário, meu pai ). Passou o tempo e tia Maria adoece e como Erivanda já casada e não podendo morar com eles (Ery também já havia saído de casa e morava em Campina Grande),  vende tudo que tem aqui e leva os pais para Esperança para poder cuidar melhor do casal.

Em pouco tempo seu João também adoece de uma perna (é como que lhe tirou do habitat onde viveu). João faleceu no dia 14 de maio de 1997 em Esperança e foi sepultado no cemitério nossa Senhora do Bom Conselho,  em esperança,  aos 80 anos e seis meses.

Sua esposa Maria Apolinário Vicente nasceu no dia 05 de novembro de 1916, teve dez (10) irmãos (Tio Manuel o mais velho, João, José, Antônio (meu pai) Severina, Regina, Sebastiana, Maria, Celina e Rita). Faleceu em 20 de maio de 2003, em Esperança,  e foi sepultada no Cemitério Nossa Senhora do Bom Conselho, também em Esperança,  aos 87 anos e seis meses.
              
Trecho extraído do livro “Causos e estórias vividas pelo povo dessa terra Areial” a ser publicado.     

Eudes Donato

Filho de Antônio Apolinário Gonçalves e Hilda Donato Gonçalves, Funcionário Público da Empresa de Correios e Telégrafos, pesquisador, colecionador de vários itens, como gibis antigos, discos de vinil, livros sobre o cangaço, e grande acervo esportivo. Colaborador em pesquisas para a revista Placar da Editora Abril, Revista da Esperança, livro sobre o América Futebol Clube da cidade de Esperança, etc.



             

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

As aventuras de Seu João Alfredo


Todo jornalista tem suas frustações.  As principais delas são não ter entrevistado algumas figuras ilustres. Eu também as tenho. Depois que me graduei jornalista, queria ter entrevistado duas pessoas: Seu Passarinho e Seu João Alfredo. O primeiro, pelo valor histórico; o segundo, por ser um exímio contador de história.

Ouvir várias histórias dele. Muitas delas de sua própria boca. Nunca esqueço quando minha mãe ia vender galinhas lá. Dona Maria sempre reclamando de “seus converseiros compridos”. Eu, feliz da vida por ouvir aqueles causos que já sabia de cor e salteado, mas que tinha um colorido diferente quando ele contava.

Para lembrar os velhos tempos, vou contar um causo que ele não cansava de contar e a gente de pedir para que ele contasse. Ele disse que, certo dia, olhou para um umbuzeiro em frente de sua casa e ele estava cheio de rolinhas, de todos os tipos e de todas as cores. Rolinhas gordas, ele enfatizava. Deu de garra da espingarda para matar um bocado, mas teve uma decepção.

Quando foi carregar a sovaqueira, percebeu que não tinha munição (chumbo, pólvora, nada)  o que fazer?, pensou. Como ele era um senhor de boas ideias, não seria naquele dia que a cachola não ira funcionar. Ficou matutando, matutando... até que, como um clarão, a ideia pipocou em sua cabeça.

Olhou para um recanto de parede viu um machado. O bicho estava afiado que reluzia. Para outra pessoa, seria um absurdo matar rolinhas a machadada. Seu João foi de pontinha de pé, passou o machado no umbuzeiro, cortou-o pelo tronco, trouxe-o para dentro de casa, arrastando a árvore frondosa sozinho, fechou as janelas, chamou Dona Maria e matou todas as rolinhas a tapa. Não deixou nenhuma fugir.

Sem disparar um tiro ele matou todas. Mansinhas que eram, não voaram. Passou mais de duas semanas comendo as aves gordas. 

Zélio Sales

P.S. Depois, contarei mais aventuras de seu João Alfredo. Se você também tem histórias parecidas, compartilhe conosco.